quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Vida e Obras de João Batista Pinheiro


Aguardem:

Este conteúdo faz parte de meu próximo livro: "AICEB, uma história de amor"



“Deus escolhe as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes.” (1 Co. 1:28).

João Batista nasceu em 1850, num pequeno povoado a sudeste do Ceará chamado Icó. Filho de uma família muito pobre e, quando ainda criança, ajudando o pai na lavoura, foi atingido no polegar do pé direito por uma enxada. Por causa disto contraiu framboésia, uma erupção cutânea própria dos trópicos. Com o passar do tempo a perna foi inchando e por causa das feridas, atraia muitas moscas, piorando ainda mais a situação de João Batista. Não demorou muito para que todo o seu corpo fosse atingido. Algumas partes foram mais prejudicadas. No nariz saiu uma ferida que em pouco tempo o destruiu totalmente. Na adolescência, sua família o levou para a cidade grande em busca de tratamento médico. Enquanto aguardava, vivia momentos de grande esperança e ansiedade, pois não sabia o que de fato aconteceria com sua perna já bem infeccionada. Os médicos fizeram tudo o que puderam, mas na tentativa de salvar-lhe a vida, tiveram que amputar sua perna direita, o que o levou a frustrações e desencorajamento.
Em 1877, a região Nordeste, mais especificamente o sertão do Ceará, foi violentamente atacada por grande seca. O Governo, tentando amenizar o sofrimento de seus liderados, providenciou meios para aqueles que quisessem ir a outros lugares em busca de melhores dias. Tendo a família de João Batista ouvido falar de que no Estado do Maranhão a vida era mais fácil e com melhores condições, decidiu se mudar para o município de Viana. A viagem foi árdua até chega ao seu destino. Mas não se arrependeu, pois as chuvas eram regulares permitindo ao solo a produção abundante de frutas e legumes.
Com a mudança climática brusca e problemas de adaptação, todos sofreram com febre e outras enfermidades. Isto só piorou ainda mais o estado de saúde de João Batista, obrigando sua família a buscar paragens mais saudáveis e que garantissem, pelo menos, sua melhora. Nesta busca, em 1878, chegaram a Barra do Corda, onde se radicaram definitivamente. Não terminaram aqui os seus sofrimentos. João Batista, com o rosto deformado pela falta do nariz, sem a perna direita e sem condições de trabalho, por causa das dores fortes e porque, de vez em quando, arrebentavam as chagas por toda parte do corpo, vivia praticamente a mercê da proteção dos parentes e das esmolas que recebia de pessoas caridosas. Como se não bastasse, a terrível doença também atingiu, de forma irreversível, a outra perna. Após dois longos anos lutando contra a doença e sem conseguir bons resultados João Batista viajou para São Luís, capital do Maranhão, em busca de auxilio médico, mas de nada adiantou. Já sem condições de qualquer recuperação a outra perna também foi amputada. Agora o futuro lhe parecia ainda mais aterrador.
Após um longo período confinado no hospital, breve João Batista teria que enfrentar as ruas da cidade. O que lhe parecia uma terrível experiência. O medo era grande, especialmente por causa de sua aparência, agora sem nariz e sem as duas pernas destruídos pela doença. Seria difícil ignorar os olhares que lhe lançariam. Seria difícil enfrentar o olhar casual desdenhoso daqueles que passassem "do outro lado." E ainda tinha que zelar por sua segurança. Em seu coração ecoava a grande interrogação: "Por quê?" Bem no fundo havia uma necessidade de entender, um desejo de encontrar algo que satisfizesse a ânsia de seu jovem coração amargurado.
Já recuperado da cirurgia João Batista teria que voltar para perto dos familiares onde tinha sustento garantido. Mas, em vez de voltar para Barra do Corda, resolveu tentar a vida em Manaus - Am. Após dois anos, não atingindo por lá seus objetivos, retornou para São Luís onde conheceu uma moça chamada Mariana. Esta moça estava disposta a compartilhar de suas poucas alegrias e muitos sofrimentos. Ela, além de devotar seu amor e cuidados ao longo de seu casamento, lhe presenteou com cinco filhos: Azubal, José, Tadom, Antônio e Ezequias Batista Pinheiro. De São Luís retornou para Barra do Corda.
Em Barra do Corda João Batista aprendeu a viver dependente das esmolas públicas. E já não ficava tão desapontado quando seu pedido não era atendido, pois no coração ainda brotava uma pequena esperança de aparecer alguém mais caridoso que lhe daria mirradas esmolas. Por causa da falta das pernas sua locomoção se dava sobre uma tábua pequena com rodas. Com o auxilio das mãos, também protegidas com couro, empurrava este improvisado assento que era preso ao seu tronco.
As condições de vida para ele pioraram muito visto que não poderia trabalhar e em Barra do Corda não havia muitas opções para alguém com limitações como as suas. A mendicância ali não lhe rendia o suficiente para sustentar a família. Com isto João Batista resolveu deixar Mariana na companhia de seus parentes e tendo ganhado passagens foi para São Luís e de lá, no seu limite físico, viajou no porão de um navio até Recife-Pe., em busca de recursos financeiros que garantissem o seu sustento.

Seu Encontro com Cristo

João Batista levava na bagagem uma imagem de “Nossa Senhora da Conceição”, que pertencia a sua irmã. Ele a estava levando para renová-la visto que já estava bem desgastada pelo tempo. A única forma que João Batista conhecia de culto era através da idolatria. E aquela imagem, depois de restaurada, serviria como companheira nas calçadas de Recife ao esmolar. Serviria, também, como demonstração de sua devotada fé nas virtudes da imagem. Com certeza aquela cena comoveria o coração dos, também, idolatras que lhe dariam esmolas. Com isto, pensava ele, teria dinheiro para suas despesas pessoais e, quem sabe, também o suficiente para guardar e levar para sua família.
Depois de algum tempo de sofrimento naquele vapor por causa de suas condições físicas e escassez de dinheiro, João Batista chegou a Recife e não demorou muito para conhecer os principais pontos da cidade. Pelas ruas se arrastava em busca de pechinchas para aliviar-lhe a fome ou para esquecer seu tão grande sofrimento.
Numa certa noite depois de mendigar o pão, já bastante desanimado, foi atraído pela musica e cânticos vindos de uma igreja Presbiteriana. Aproximou-se, parou na porta e olhando para dentro da igreja viu que tudo aquilo era totalmente novo para ele. Uma igreja sem altar, nem velas, enfeites ou imagens. Também era novo aquilo que o pregador falava. Pela primeira vez ouviu sobre o evangelho que salva; o único caminho para o céu; Jesus Cristo e o imenso amor de Deus para com o pecador. Pela primeira vez ouviu promessas de vida eterna. Dali em diante passou a visitar com mais freqüência àquela igreja. Reconhecendo seu estado miserável e crendo nas palavras de redenção oferecidas por Cristo, poucos dias depois O aceitou como o único que poderia salvá-lo. Isto aconteceu por volta de 1892.
Logo em seguida foi alimentado espiritualmente pelos seus novos irmãos. Ele tornou-se o ouvinte mais pontual daquele pregador. Também ganhou uma Bíblia e convencido da verdade que havia em Jesus, João começou a estudá-la. Decorou vários trechos (aqueles freqüentemente citados pelo pregador) e aprendia mais e mais sobre a maravilhosa salvação oferecida por Deus a pessoas como ele mesmo. Cristo agora era a razão de sua existência e a Bíblia, a fonte onde encontrava conforto. A velha imagem que antes era sua companheira de mendicância foi abandonada. Consigo, agora, carregava a Bíblia. E a mendicância que antes era apenas um meio de sobrevivência, agora se tornou uma oportunidade para falar de Cristo aos seus benfeitores.
À noite, em sua rede, ele refletia sobre o imenso amor de Deus, sobre o desprendimento de Jesus ao tomar sobre Si a punição dos perdidos pecadores. "Que perdão maravilhoso! E é meu para sempre," disse ele ao reconhecer a graça de Deus. O moço conhecia muito bem o significado do sofrimento e a angústia mental que resultavam da dor física, da ansiedade e da solidão. Mas, o seu sofrimento era pessoal, era resultado de doença. Por outro lado, o puro e santo Filho de Deus havia suportado agonias inomináveis em seu corpo e em sua alma, em favor de outros, porque os amava mesmo sendo eles pecadores. Ele era o único que poderia salvá-Ios porque era puro; o único que podia redimi-los e destruir aquele que os trazia em servidão. "Aleluia," gritou João Batista enquanto meditava no inigualável amor de Cristo para com os pecadores perdidos.
Como esta mensagem era diferente da superstição, feitiçaria e falsos ensinamentos que abundavam naqueles vilarejos ao longo do rio Mearim! João Batista tinha muitos parentes em Barra do Corda. Começou a pensar neles, no temor que eles tinham da morte e da vida futura e na servidão em que a feitiçaria os trazia. Seus parentes e amigos ainda se encontravam presos pelos mesmos grilhões que um dia o haviam prendido. Quanto mais pensava neles, na condição de escravos em que se achavam, mais crescia a vontade de lhes compartilhar a maravilhosa alegria que agora enchia o seu coração. A verdade que o havia libertado poderia também quebrar os grilhões que aprisionavam os seus. Ele sentiu então a necessidade de levar as boas novas até seus parentes em Barra do Corda.

Sua Visão Missionária

Durante a longa viagem de volta para o Maranhão passou por vários lugarejos esmolando para se alimentar. Enquanto isso aproveitava para falar do amor de Deus a todos os que dele se aproximavam. Alguns davam a esmola, outros a negavam por ser ele crente e outros davam com uma condição: “que a aceitasse em nome do santo “fulano”. A estas, João Batista se recusava receber. Durante seu retorno Deus providenciou para que nada lhe faltasse. Pessoas se dispuseram a ajudá-lo no que fosse possível. O testemunho de João Batista era visto através de sua coragem em vencer seus próprios limites
Ao chegar a São Luis, João Batista encontrou um grupo de crentes. Contou para eles suas experiências em Recife e como agora era uma nova criatura em Cristo Jesus. O seu coração se alegrou junto com estes irmãos, onde aprendeu mais da verdade e da segurança que a Palavra de Deus oferece aos que recebem Cristo pela fé. Ele participava dos cultos fielmente e logo se tornou membro daquela igreja. Cada dia aumentou mais o seu desejo de levar as boas novas de salvação aos seus parentes em Barra do Corda. Mas, como poderia um aleijado como ele viajar sozinho de barco pelo rio a cima até Barra do Corda? Alguém precisaria ajudá-Io. Só de pensar que teria de entrar e sair da barcaça várias vezes durante cada dia da viagem para satisfazer suas necessidades fazia com que sua idéia parecesse impossível de ser realizada. Mas, não havia ele ouvido o pregador afirmar que para Deus nada é impossível? João Batista estava convencido de que Deus tinha um plano para ele. O Deus que nunca falha havia colocado um grande desejo em seu coração e, certamente cumpriria estes planos.
João Batista foi conversar com seus novos irmãos daquela pequena igreja. Eles oraram juntos e lhe prometeram fazer tudo que estivesse ao seu alcance para ajudá-Io. Arranjaram-lhe as coisas que precisaria, deram-lhe um hinário e uma Bíblia e o levaram até a barcaça que já estava abarrotada de caixotes, passageiros e sacos de aniagem com sal bruto. Ajudaram-no subir a bordo e prometeram que se lembrariam dele em suas orações. A lancha se aprontava para rebocar a barcaça, que o povo do norte chamava de batelão, rio acima. A viagem tinha uma duração aproximada de duas semanas. Corajosamente João Batista acenou em despedida para seus novos irmãos em Cristo.
Em 1893, retornou para Barra do Corda a fim de anunciar as boas novas aos parentes e amigos. Sabia das dificuldades que certamente enfrentaria por causa dos seus limites, mas ardia em seu coração o desejo de pregar para outros e cria que Deus o ajudaria no retorno para sua cidade. Foi assim que empreendeu uma longa viagem até seu campo missionário, Barra do Corda situada as margens daquele rio.
Como as demais, esta foi uma viagem muito incômoda pois lhe faltavam ambas as pernas para sua locomoção. Tanto os passageiros como as bagagens no batelão eram protegidos do sol e da chuva por um teto de folha de palmeira. Havia pouco espaço para se mover; havia sacos e engradados por todo lado. João Batista precisaria de ajuda para tudo, até para atar sua rede para o descanso da noite. Entre os passageiros encontrou alguns que, vendo sua precária condição, se dispuseram a ajudá-Io em tudo que pudessem. Penduraram sua rede num nível mais baixo, de forma que ele pudesse se arrastar sozinho para dentro. A hora das refeições, aquelas mesmas pessoas prestativas lhe enchiam um prato esmaltado de arroz e feijão retirados de grandes panelas de ferro, que ficavam na popa do batelão sobre fogão à lenha.
O sabor da comida a bordo fez João Batista relembrar sua vida no interior. Para temperar o conteúdo de cada panela o cozinheiro usava um punhado daquele sal bruto. Com grandes colheres de pau ele retirava a espuma que se formava em cima da água fervente. O sal era muito impuro e o que não era sal tinha que ser retirado e jogado fora.
Mesmo assim, o arroz e o feijão feitos ali mantinham aquele sabor distinto do sal bruto.
Durante a viagem ele aprendeu muitas e preciosas lições do Senhor. Uma delas foi a importância daquele sal tão grosseiro, sujo e feio que estava no batelão, mas que tinha a utilidade de dar sabor ao alimento que o sustentou durante aqueles dias. Aplicou aquela lição à própria vida reconhecendo que não era a aparência física que influenciava. Sabia que ainda era imperfeito como aquele sal grosso, mas que Deus o refinaria e o transformaria em algo útil para o Seu trabalho. Reconheceu que o importante era a vida com Deus e o conhecimento de Sua Palavra. João Batista aprendeu na Palavra que ele era o sal da terra “Vos sois o sal da terra.” (Mt. 5:13) Será que todo aquele sofrimento pelo qual ele estava passando não era a poderosa mão do Senhor refinando-o para ser muito bem usado? Ele aprendeu a lição e agora estava disposto a desempenhar o papel de “sal da terra” no meio daquela geração perversa que morava em Barra do Corda. Seus companheiros de viagem reconheceram que havia algo diferente em João Batista. Eles ficavam impressionados com a coragem daquele aleijado em vencer suas próprias dificuldades. João era grato por tudo o que ali faziam por ele, e se mantinha sempre alegre e amigo.

Seu Campo de Trabalho

Ao chegar a Barra do Corda muitas foram as mãos que se dispuseram ajudá-lo a sair da lancha. Seus parentes e amigos vieram recebê-lo e logo notaram grande diferença em João Batista. Não estava triste e abatido como todos esperavam. Apesar de não ter mais as duas pernas, sua aparência era boa e saudável. Parecia feliz e de fato estava. Todos queriam saber das noticias da cidade grande. João Batista não economizou nos detalhes. Mas, existia algo mais importante que ele queria compartilhar. Como ansiava pelo momento de falar para todos sobre a salvação em Cristo. João havia voltado ao interior exclusivamente para divulgar a grande salvação, mas ninguém parecia querer ouví-Io. Mesmo assim ele aproveitava cada oportunidade para testificar de Cristo àqueles que só se interessavam por suas experiências nos hospitais e nas viagens. Mas, a única coisa que ele conseguia era despertar o ódio e desejo de perseguição dos cordinos. Isto o deprimia. A Bíblia e a comunhão com Deus o reanimavam muito e o relembravam da gloriosa missão para a qual foi enviado - “Vós sois o sal da terra.” Deus havia lhe dado aquela missão e junto, também, lhe deu um grande amor e determinação.
Barra do Corda era território de Satanás há muito tempo. O medo aterrorizante de ser punido pela feitiçaria e por seus deuses, por dar ouvidos aquela nova religião, criou uma atmosfera de ódio e violência do no povo contra ele. A irmã de João Batista, dona da imagem que ele havia levado para Recife, também não estava muito satisfeita por ele ter dado fim naquela tão preciosa relíquia. Mas, apesar de tudo, João continuava se reunindo com os que queriam ouvir da Palavra de Deus e aproveitava para dizer que a idolatria era abominação ao Deus verdadeiro.
A notícia se espalhou rapidamente e logo chegou aos ouvidos do padre responsável pela paróquia em Barra do Corda. Durante uma reunião dominical, quando João Batista estava com alguns parentes e amigos estudando a Bíblia, sua casa foi violentamente invadida por alguns homens que tinham o propósito de atacá-lo por ordem do padre. Arrancaram de suas mão a Bíblia e foram entregá-la diretamente ao padre. A noite foi feito uma fogueira na praça da cidade, em frente da Igreja Católica e, como sinal de zelo e sob a aclamação dos fanáticos católicos, o padre lançou o Livro Sagrado dentro do fogo, reduzindo-o a cinzas. O objetivo deste insano ato era de intimida João Batista.
Agora estava o missionário sem sua ferramenta. Mas, perseverou na determinação de pregar o evangelho. Sem demora ele escreveu uma carta aos irmãos em São Luís pedindo mais Bíblias. Pediu também que os irmãos orassem pela sua segurança pessoal. A vida ali para ele estava muito difícil e perigosa.
Enquanto esperava a chegada das Bíblia, João Batista continuou falando às pessoas sobre Cristo, recitando os trechos da Bíblia que já havia decorado. Também cantava hinos que traziam a mensagem de vida eterna. Arrancaram-lhe a Bíblia, mas não puderam arrancar de seu coração o conhecimento de Deus e amor em anunciar Sua Palavra. Em um deste dias, foi violentamente atacado por uma turma de vadios inimigos do evangelho que o ridicularizavam, o agrediram fisicamente com os pés e até o apedrejaram. Ali foram derramadas as primeiras gotas de sangue em Barra do Corda em defesa do evangelho. Vendo aquela horrenda cena, o Juiz de Direito, que a tudo assistia, correu em sua defesa e o livrou daqueles jovens mal intencionados, ameaçando-os severamente.
A onda de oposição que estava se formando finalmente começou a perder força, pois viam que a vida de João Batista era um exemplo vivo da mensagem transformadora de Cristo. O efeito, tanto do seu testemunho quanto de sua pregação, foi tão grande que aos poucos as pessoas foram aceitando Cristo como Salvador. Sua sobrinha foi uma das primeiras a aceitar Cristo, fazendo sua profissão de fé pública. A partir de então, um por um de seus parentes se converteram, abandonando as práticas religiosas falsas. Pacientemente ele começou a ensinar esta pequena congregação tudo o que havia aprendido sobre Deus. Ensinava os versículos e os hinos que havia decorado e que se tornaram preciosos. João Batista e a congregação continuaram orando pela chegada das Bíblias que ansiavam por receber.
Tempos depois chegou a resposta de sua carta. E em lugar de apenas um exemplar da Bíblia estavam chegando quatro. Ao entregar o pacote a João Batista o agente dos Correios fez o seguinte comentário: “É bom que o padre não queime estas, porque senão virão dezesseis Bíblias.” A preocupação de todos era se os inimigos do evangelho também queimariam estas Bíblias. Mas, Deus não permitiu que isto acontecesse. As preciosas páginas foram lidas e relidas por aqueles que sabiam ler e todos foram edificados. Através da leitura da Bíblia João Batista viu muitas pessoas conhecendo a Cristo; vidas sendo transformadas; hábitos pecaminosos sendo abandonados.
Os anos se passaram e, após muitas experiências difíceis, surgiu uma pequena igreja em Barra do Corda. Com o coração agradecido, João Batista viu bons frutos produzidos nas vidas dos crentes. Aquela comunidade que nunca se permitira ouvir o evangelho, agora estava sendo transformada pelo poder deste mesmo evangelho. Um grupo de doze famílias salvas se tornou um exemplo de vida cristã para seus vizinhos curiosos e também hostis. Aos poucos outros foram se convertendo e se ajuntando a seus novos irmãos em Cristo.
Em 1901 as famílias Barros, Caetano, Pinheiro e outras já haviam aceitado a Cristo através do testemunho de João Batista. Eram famílias que viviam do cultivo da terra e, como também compartilhavam da mesma fé, decidiram comprar uma propriedade no lugarejo chamado Lagoa da União, município de Barra do Corda, ficando distante de lá 30 km. Formaram ali uma pequena colônia onde poderiam cultivar a terra e sua fé. Algumas pessoas chamavam aquele lugar de “Centro dos Protestantes”. Abdoral Fernandes da Silva o descreveu assim:
Era uma localidade no centro mais denso da mata, destinada ao abrigo de famílias crentes e pobres que se ocupava de cultivar o solo. Era mata sem fim, sem medida, requerida pelo sistema antigo de posse, cujos limites não se conheciam. Naquele lugar não morava ninguém de outro credo. (SILVA, 1997, p. 16)
Logo uma pequena congregação evangélica surgiu em Barra do Corda como resultado do grande esforço de um homem aleijado do corpo, mas com o coração inteiramente dedicado a pregação do evangelho. O grupo crescia e se tornava cada dia mais carente de conhecimento bíblico. Todos oravam incessantemente ao Senhor pedindo que suprisse a urgente necessidade de mais instrução e conforto diante dos permanentes ataques satânicos. Em 1907 receberam como resposta das orações a visita do primeiro missionário naquela região, Sr. Mackenzi. Em 1910, o missionário W.M. Thompsom, pastor da Igreja Presbiteriana em Caxias - Ma., andou 70 léguas a cavalo até Barra do Corda, para ver de perto aquele punhado de remidos perseverantes. Ali foram confortados mutuamente e antes de sair o Pr. Thompsom prometeu ao grupo que a Igreja em Caxias daria todo o apoio necessário àquela congregação e que, a partir daquela data, ela estaria anexada ao seu campo de trabalho. Nascia naquele momento uma congregação presbiteriana.
Minorou um pouco as necessidades, mas João Batista não estava totalmente satisfeito, pois era necessário alguém que servisse permanentemente ali. Ele já não dispunha de boas condições físicas visto que a doença agora já atingia a visão e audição. As repetidas crises de febre tornavam ainda mais espinhosa a vida daquele missionário. Destinado a viver preso dentro de uma rede, João Batista passou a liderança do trabalho para seu cunhado Joaquim Pinheiro e, pouco ia aos cultos. Quando isto acontecia era resultado de extremo esforço para chegar até lá.
Os anos se passaram e João Batista já velho, doente, cego e praticamente surdo, limitado tanto fisicamente quanto de conhecimento, sentia que aquele grupo necessitava de mais alimento da Palavra. Piorando cada dia e não tendo mais condições de sair em busca do sustento, se deixava ficar na rede a qual foi transformada em altar de oração e ali elevava a Deus o constante pedido: “Pai, manda alguém de tua escolha para ensinar a estes crentes a Tua Palavra, para que possam aprender a evangelizar, aprender também a alegria de testemunhar, para se tornarem o sal verdadeiro nessa região a fim de que Teu nome seja engrandecido. Amem.”

Resposta de Suas Orações

Em Grajaú, cidade também do interior do Maranhão, há 200 km de Barra do Corda, residia os missionários Perrin e Ana Smith . Em 1911, de passagem para São Luís, chegam a Barra do Corda onde embarcariam para a Capital. Milagrosamente a lancha que os levaria nesta viagem precisou demorar no porto. O casal de missionários, já tendo ouvido falar do trabalho realizado por João Batista, decidiu ir até sua casa para conhecê-lo. Quando os visitantes chegaram, o velho evangelista não teve dúvidas de que suas orações tinham sido ouvidas e que o casal era a resposta de Deus. Não podendo esconder a alegria num brado disse: “Hoje Deus respondeu minhas orações.” Agora seu coração poderia descansar sobre o futuro do trabalho que havia começado. E como Simeão ele também poderia dizer: “Agora Senhor, despede em paz o teu servo.” (Lc 2:29).
Dali em diante, sempre que podia, Perrin Smith dava assistência àquela congregação e naquele ano realizou mais de 30 batismos. Os crentes lhe pediram para conseguir alguém que pudesse cuidar daquele rebanho tão carente de pastor, pois João Batista já não poderia mais ajudar devido o seu estado de saúde bastante comprometido. Em atendimento ao apelo feito, Smith se comprometeu em transferiria suas atividades missionárias para Barra do Corda assim que retornasse de suas férias no Canadá. Em 1914, como havia prometido o casal Smith, ao retornar do Canadá, fixou residência em Barra do Corda e continuou o trabalho de evangelização iniciado por João Batista ali na pequena cidade indo com a mesma mensagem por varias cidades e lugarejos do Maranhão.

A Despedida do Missionário

Ainda dois longos anos de sofrimento físico se passaram. No dia 22 de março de 1916 João Batista acordou com febre baixa apesar de estar muito desfalecido por causa das febres altas passadas. Chamou sua filha Azubal e com muita dificuldade, mas com convicção, disse as palavras de Paulo: “Acabei minha carreira”. Poucos minutos depois aquele dia se tornava o melhor de toda a sua existência, pois estava com o Senhor, o que era muito melhor.

Resultados do Ministério de João Batista

Com a chegada de Perrin Smith em Barra do Corda para continuar a obra iniciada por João Batista a cidade foi transformada em um centro de expansão missionária. Aquela congregação, agora igreja organizada, estava prestes a se tornar a mãe de mais uma denominação evangélica no Brasil.

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